A Arte da Calçada
A Arte da Calçada
Conta a história que foi à conta do Rinoceronte, de Afonso de Albuquerque e de D. Manuel I que se pavimentou a primeira rua de Lisboa com pedra preta e branca para que nela ele fosse possível passar. O animal, o primeiro na Europa desde que Aníbal avançara com os seus elefantes, era grande, as ruas sujas com a lama do inverno e a curiosidade muita para festejar os anos do Rei e ver tal ser numa cidade cada vez mais centro de um novo mundo. Passam os anos, vem o terramoto e a reconstrução da cidade. Reaparecem as tais pedras, agora de um material mais fácil de transportar. E na nova Lisboa que dai vem, volta a antiga calçada: agora mais definida, pensada para gerações e marcando território. O que fora uma questão utilitária tornar-se-ia como um suporte da nossa matriz. Chega depois, já no século XIX, a grande parte da cidade e a todo o Rossio onde se desenham as ondas dos mares das caravelas e das naus que de Belém partiram. Que com o correr dos séculos levavam como lastro as tais pedras que no seus destinos marcariam a presença portuguesa e que são também hoje parte do mundo lusíada. Claro que como quase tudo o que tem a ver com identidade, e em nome do "progresso", aquilo que está hoje inscrito como património imaterial nacional e candidato a também o a ser da humanidade está ou esteve em declínio. Em nome da segurança e dos custos pois está claro mas também pela diminuição do investimento e na formação de mestres calceteiros. Que até referendos houve sobre o caso. Valham os esforços destes últimos anos na CML para recuperar parte do que tinha sido destruído ainda que, ao que parece, não suficientes principalmente lá para os lados do antigo Picadeiro Real.
Bela metáfora desta crónica trágico-comico-marítima em que o país se tornou. Marcelo, Presidente desta República, a tapar buracos desta calçada do regime feita à pressa onde porque mal estruturada e, mesmo que logo arranjada, se torna cada vez menos possível continuar a acreditar. Mas haja esperança: quem é monárquico e portanto português não desiste. E nada de esquecer que, do lá do alto do jardim em frente está o grande Afonso que deu origem a esta história toda. Mais uma que lhe ficamos a dever. Por isso alma, génio (o dele) engenho e claro, muita arte.

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