A arte da Quinta
Um, dois,três, quatro, cinco,seis quadrados. Com um pequeno muro, à volta, com tampa, como um poço misterioso. São as entradas para as minas de água aqui da Quinta. Entre elas galerias com abóbodas por onde corre, há mais de três séculos, a "água natural" que depois enche o tanque grande onde antes se lavava a roupa, de onde segue, não a correr porque aqui tudo tem o seu tempo, para a cascata mesmo de baixo da Casa de Fresco e para o lago do jardim. Ao seu lado e porque a beleza só se alcança com harmonia, segue por um muito simples mas bem traçado circuito de caneiros para a zona de produção, ou laranjal. E para que não se pense que isto da economia circular ou da sustentabilidade foi inventado no século XXI, lá está o tanque, chamado de rega porque essa era a sua função. Reservar água para mais tarde utilizar, aproveitar madeiras para estruturas, cortiça para isolar (e embelezar) por exemplo a Casa de Fresco. Nada de desperdicio. O desenho de uma Quinta portuguesa típica onde o equilíbrio entre homem e natureza acontece, como se mão humana não ali existisse e tudo brotasse (ou bolisse) do solo para desfrute da alma e satisfação da existência. Muito provavelmente é ali, naquelas minas, que nasceu a Quinta. Da água que se tinha que fazer chegar ao campo mais abaixo garantindo que ela assegurava que tudo o que ali fosse plantado daria fruto. E com a água, vieram as árvores. Espécies nativas ao princípio, outras mais raras à epoca. O Plátano monumental que abraça o lago, as três grandes Magnólias do perímetro do Jardim. E as tilias, as glicinias, as grevileas, o jasmim e as outras todas. No levantamento que fizemos de vinte e três famílias diferentes. Com elas os pássaros. E um sitio mágico que se foi fazendo. O jardim que alguém entretanto pensou como espaço de lazer e de descanso e que há cem anos tinha arcos com roseiras, ganhou depois buxo e agora de novo mais rosas quase todas cor de rosa; na casa da cascata, que um dia já esteve perfeita com os seus desenhos de conchas e companhia das indias bem ao gosto do século XVIII já corre água de novo e um dia ( não sei quando mas ele vai chegar) voltará a ser o que foi. Mas não igual que são as marcas do tempo que também dão raça às coisas e aos lugares. Hoje, quando tratávamos (porque é de cuidar que se trata) de uma árvore que se estava a encostar de mais a uma casa a que chamamos Chineza pela forma do seu telhado demos por nós a falar de Paz. Do equilíbrio do espírito que se pode ter aqui. Com as árvores, os pássaros, a imperfeição de alguma ramo ou muro mais fora do lugar e, claro, da água, elemento unificador do espaço todo e sua razão de existir. É ela de facto o seu fio condutor, a razão da história toda desta Quinta. Uma das maravilhas é mesmo essa, um lugar que foi sendo criado e não desenhado a régua e esquadro, perfeitinho. E nós, que agora somos os seus guardiões, temos a imensa sorte e responsabilidade de a querer saber viver no nosso tempo e o melhor que soubermos. Cada um acrescenta e sente-a. Se primeiro foram os frutos do campo a prioridade, se a seguir era o jardim o centro deste mundo, agora é aqui de casa que se olha o todo e se volta ao princípio e ao ciclo desta água abençoada que queremos conservar e valorizar. Os recursos hídricos que são, esses sim a sua (e a nossa enquanto comunidade) principal riqueza. A água, fonte de toda esta vida.

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