A arte das latitudes
A arte das latitudes
Muito se fala (e bem) na posição geográfica de Portugal. E pelos mapas e pela ciência que os produz, a cartografia, chegamos ao conceito de latitude. Mais ou menos elaborados, e a partir do Renascimento o continente europeu aparece nos planisférios ao centro. É a partir daí que o mundo se desenrola e de onde tudo parte. A arte do desenho e da ilustração somada à arte de navegar dum pais que se reforçava no mar. Se olharmos bem nos mapas mais antigos é possível perceber um pouco por todas essas latitudes a influência e a presença portuguesas também através do toponímia de algumas paragens.E é essa a representação que ainda perdura se bem que mais longe da realidade geopolítica. Ainda está por conhecer em pleno o contributo de homens como Pedro Nunes para o desenvolvimento da ciência do seu tempo e do tempo que veio mas uma coisa é certa. Estudando em profundidade, identificando problemas e apresentando conceitos novos, foi possível encontrar soluções e mudar a História: as linhas de rumo da navegação, a loxodromia ou o nónio que nos fizeram perceber o caminho a seguir pelo mar pelos nossos navegadores.
Vem tudo isto também a propósito dos novos equilíbrios (?) geopoliticos que se avizinham e das chaves que se procuram para o entender. Reforçada na fronteira norte do continente europeu a importância da Nato e com os EUA a fortalecerem a sua presenca e estratégia para o Pacifico através da AUKUS, com uma União Europeu em que se desenham novos blocos de alinhamento (um eixo mais continental germano/polaco ao qual se acrescentará a Ucrânia e um Atlântico do qual Portugal faz parte) é matéria de interesse nacional a definição de uma estratégia que reafirme e reposicione o nosso pais nos novos desafios geopoliticos que se avizinham. E se são muitas as oportunidades maiores são as responsabilidades. Importa ter a capacidade de as entender e dispor de meios para as assumir. E liderança que o saiba entender e visionar. E é essa talvez a maior das inquietações (ou das omissões pela sua não existência nesta equação). São múltiplas as ameaças à nossa segurança: não só por terra, mar e ar mas também pelo espaço e ciberespaço.
Os 19 cabos submarinos actualmente existentes demonstram como Portugal se posiciona como uma plataforma cada vez mais fundamental na área das transmissões, com ganhos possíveis superiores a qualquer outro concorrente europeu. Numa era em que a velocidade e segurança é cada vez mais exigente e prioritária, a proximidade geográfica aos continentes americano e africano são, de novo, uma mais-valia mas também um desafio pela necessidade de criar condições para que essa centralidade seja acompanhada com a criação de infrastruturas que as acompanhem nas suas ligações e reforcem a componentede Segurança. Num mundo totalmente dependente de informação e da rapidez com que lhe tem acesso, mais importante será o hub português que liga todos os continentes à excepção da Antárctida, mas maiores serão também as ameaças externas o que deve levar a que reforço da componente de segurança nesta área na revisão do conceito estratégico de defesa actualmente em curso. Assim como o deve ser o empenho no crescimento dos vectores agro-alimentar e energético, nomeadamente em cooperação com os paises de lingua oficial portuguesa de que Portugal tem de continuar a ser o elo de ligação privilegiado à Europa e na capacitação dos recursos humanos dos nove países desta organização, único bloco económico presente em quatro continentes e pertencente a seis comunidades económicas. O caso da Guiné- Bissau cada vez mais próxima da influência francófona, que o leva também a afastar a hipótese de uma próxima presidência da CPLP, o exemplo do que não deve acontecer. Para crescer como comunidade é necessário fazer com que cada um se sinta parte do todo, criando valor nessa pertença.
Por outro lado, e se é verdade que o governo português tem defendido nas últimas cimeiras Nato a importância do flanco sul da aliança por questões de segurança face à instabilidade no norte de África e na região do Sahel ligada também à imigração desregrada, ao não controlo fronteiriço e à falta de respeito pelo valor da vida humana a ela inerente, quase tudo está por fazer para o pôr em prática. Falta investimento e falta capacidade de intervenção a esta que deve ser uma das prioridades da política externa e de defesa portuguesa.
Num mundo cada vez menos eurocentrico a vantagem geográfica de Portugal é ainda mais estratégica. O contexto actual favorável e altamente desafiante para o interesse nacional português em domínios estratégicos. A arte de hoje é provar que as vamos de novo saber aproveitar. Novamente a partir daqui e para outras latitudes.

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