A arte da Boa Esperança ou de Portugal Restaurado


A cena passa-se numa conversa que vem por um acaso este verão, em Sagres. Um casal sul-africano a viver nos Estados Unidos, bem conhecedor da nossa história e curioso sobre o nosso presente perguntava-me onde estavam agora os Portugueses. O que é que tinha acontecido a Portugal para que chegassemos aqui e assim. Que havia cientistas, escritores, artistas, desportistas mas que a dimensão nacional tinha partido. O porquê que agora, a poucos meses de novas eleições, ganha ainda maior relevância.


Respondi com os mais do que válidos argumentos da falta de liderança, de inexistência de estratégia global, do desinvestimento na educação, na incapacidade crónica de organização do Estado, da degradação das Instituições. Mas logo a seguir lembrei-me do tal génio e da tal força inesperadas dos portugueses de que Napoleão falava a Junot e não lhes quis (ou a mim mesma) dar razão. Novos ciclos que nunca tivemos medo de começar, a nossa eterna capacidade de reinventar.

E falei-lhes da lingua portuguesa, dos milhões que em todo o mundo têm lá dentro um bocadinho daquilo que faz ser português, dessa riqueza enorme que é ou pode ser fazer parte desta civilização lusíada que é a nossa, da não resignação em deixar que Portugal fique para trás. Da identidade comum que não se explica de outra forma. Da Lisboa das sete colinas e de tantas partidas, ponto de união de tantas chegadas.

Ela sorriu e disse-me: "Sabe, tem razão. Conheço alguns deles. Cresci ao pé do Cape of Good Hope e por isso também estamos aqui. Vendo bem, só um povo podia dar esse nome a um cabo." O da Boa Esperança.

Verdade é que já dobrámos outros cabos e outras tormentas. Mais dificil agora? Talvez. Mas, afinal, todos eles foram, para além da esperança os da concretização. Vamos precisar muito disso no ano que ai vem. E tomem lá a bandeira, com castelos e quinas que aqui a inclusividade é de Portugal restaurado.

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