A arte da Vista





Sobe-se a serra e de repente ela aparece. A vista. O mar do Alentejo com a planície que vai ter com ele, aquele litoral todo diante do nosso olhar. Realidades diferentes que depois nos vão aparecendo,mas que naquele lugar nos remetem para outra dimensão. Um plano que nos leva para além do olhar, pensamento que naquele repente nos transporta para uma descoberta do que está ou pode estar para além do horizonte. A harmonia que o Homem procura para o seu equilíbrio. Que para quem estiver atento, o que acontece é sempre novo. 

As cores, a luz, as épocas do ano, a terra, o arvoredo que aqui e ali vai ganhando forma. E a Arrábida mais à direita que às vezes se vê. Como que existindo ali uma fronteira imaginária entre a vida concreta, real e aquilo que nos pode fazer sair de nós, exponenciando o que trazemos cá dentro nesta viagem.

Logo a seguir a descida vai acontecendo, acompanhando a paisagem. Como a definiu Ribeiro Telles é isto tudo: uma expressão do espaço que é vivido pelo Homem, natureza trabalhada, cujos elementos em toda a sua bio diversidade estão sujeitos à lei da vida e para tornar mais viva a vida dos Homens, não um cenário puramente turístico para ser vendido. A identidade cultural do país e a natureza equilibrada de instalação da população que se deve procurar encontrar. Horizontes nunca estáticos que se vão alargando, visões 
de saberes transmitidos e inovados.

A lógica dinâmica desse ciclo, árvores que aprendemos a conhecer, povoações que surgem, caminhos que se descobrem. A Terra que com o seu poder regenerador cria vida e a renova.

Mas, para que aí se chegue, é preciso saber ler o se vê, ter ferramentas para que a mente humana não fique fechada dentro de um quadrado, presa numa fotografia postada algures, formatada e incapaz de pensamento critico fundamentado e sentido. Educar para saber olhar, interiorizar, apreender a maravilha da vista. Que pode ser aquela ou outra qualquer porque é do espanto, da liberdade da novidade que vem naquele instante que falamos.

Pode-se chegar àquele quilómetro e ser só isso, menos um nos que faltam fazer; pode-se reparar que mais à esquerda e lá ao fundo Sines vai crescendo, que a vida na serra está mudada, que já se saiu de Grândola e que Santiago está quase ali; pode-se nem pensar em nada e só seguir.

Mas nós precisamos de, em algum lugar, a encontrar. A Vista. Byung-Chul Han no seu “Louvor da Terra” desafia-nos a ver e a ouvir de novo a magia da Terra para ele perdida e por isso se faz, também ele, jardineiro na procura do Belo e da Harmonia e que só se atinge com a superação. Lê-se e pensa-se também nesta paisagem, feita de terra, de mar e das necessidades muito para além de materiais dos Homens deste litoral alentejano ali mesmo à frente do nosso olhar.

A alma (a dos lugares e a das pessoas) vive e acrescenta-se desses momentos. Os da Vista. Que não cabem em lado nenhum que não no nosso pensamento e, depois sim, na nossa acção, que deles nasce. Na Beleza do que se pode criar. Livres e capazes de voar. 

Comentários

  1. Luzes novas! Tantas ideias óbvias em que não tinha pensado! É isso: olhar com os olhos, ver de novo. Obrigada!

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